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Entre o som do sino e o grito da cidade

Entre o som do sino e o grito da cidade

Sino Vox Patris será instalado na Basílica do Divino Pai Eterno e reacende a fé popular. Mas trindadenses cobram soluções para problemas urbanos e estruturais que se agravam a cada dia.

Um novo marco religioso

Trindade, a Capital da Fé, está prestes a receber um símbolo imponente: o Vox Patris, maior sino do mundo em sua categoria, com mais de 55 toneladas. Fundido na Polônia, o sino será instalado no complexo da Basílica do Divino Pai Eterno e promete se tornar um novo marco turístico e religioso para o município goiano.

O projeto nasceu ainda na gestão de padre Robson de Oliveira, idealizador da AFIPE (Associação Filhos do Pai Eterno), e segue sendo conduzido pelo atual reitor da Basílica, padre Marco Aurélio. Ambos viajaram à Europa ao lado do prefeito de Trindade, Marden Júnior, que liderou a comitiva oficial para acompanhar de perto a fundição e o embarque do sino.

Segundo apuração do Goiás Verdade, a viagem custou cerca de R$ 170 mil aos cofres públicos, incluindo passagens, hospedagem, alimentação e deslocamentos da equipe. O valor levantou críticas de moradores, especialmente diante dos inúmeros problemas enfrentados pela cidade.

O eco de padre Robson

Mesmo afastado da reitoria, padre Robson segue sendo uma figura reverenciada pelos trindadenses. Atualmente, ele celebra missas em Mogi das Cruzes (SP), onde continua reunindo multidões. O sino, segundo muitos fiéis, é a continuidade de um legado de fé construído por ele ao longo de anos.

O retrato da cidade: buracos, escuridão e promessas esquecidas

Enquanto a cidade se prepara para receber o símbolo religioso, a realidade urbana de Trindade preocupa: ruas esburacadas, obras paradas e uma população cada vez mais desconfiada.

A iluminação pública, recentemente substituída por luzes de LED — adquiridas com empréstimos milionários — já apresenta falhas. Em vários bairros, lâmpadas queimadas deixam moradores inseguros. O contraste entre os investimentos em símbolos e a falta de serviços essenciais gera revolta.

Entre as promessas não cumpridas pela atual gestão estão:

  • Anel viário: amplamente divulgado, mas não executado;
  • Maternidade municipal: promessa de campanha que segue só no papel;
  • Asfaltamento da região do Cedro: importante área da cidade continua com poeira e lama;
  • Meio-fio deteriorado em diversos bairros: ruas com aparência de abandono.

Parque Hugo Reis: da inauguração ao abandono

Outro caso que revolta os trindadenses é o Parque Hugo Reis, recentemente inaugurado pela gestão de Marden Júnior, mas já inutilizável. Poucos dias após a entrega, uma erosão rompeu a barragem, impossibilitando o uso do espaço.

O investimento na obra ultrapassou R$ 1,5 milhão, mas hoje o local está fechado, sem previsão de reparo. A prefeitura culpa a empresa responsável pela execução, mas nenhuma solução foi apresentada. Enquanto isso, os moradores seguem sem poder usufruir do parque.

[Imagem do rompimento da barragem do Parque Hugo Reis]

Caos na saúde: falta de medicamentos e demora no atendimento

A saúde pública em Trindade também é alvo de críticas. Moradores relatam falta de medicamentos, demora excessiva para exames e dificuldades para conseguir consultas especializadas. Pacientes aguardam meses para serem atendidos, mesmo em casos urgentes.

Um segundo mandato sem respostas

O prefeito Marden Júnior foi reeleito com a esperança de que, no segundo mandato, cumpriria suas promessas de campanha. No entanto, o que se vê é o oposto: falta de planejamento e um excesso de foco no sino, enquanto a cidade clama por soluções reais.

A fé cristão não está em símbolos, mas em Cristo Jesus. O sino pode tocar, mas não resolverá os problemas da cidade, a menos que o prefeito mude sua postura e governe com seriedade e organização. Nos bastidores, aliados políticos já começam a se afastar do grupo de Marden Júnior, insatisfeitos com a falta de credibilidade e comando.

O sino não representa todos

Embora Trindade seja a Capital da Fé e abrigue a maior romaria católica do país, cerca de 50% da população é composta por cristãos evangélicos. Para muitos fiéis, a esperança do povo deve estar em Cristo — e não em uma peça de bronze que, embora imponente, não resolve os problemas da cidade.

“O sino pode tocar, mas quem muda a realidade é Deus — e também um prefeito comprometido com a população”, dizem líderes e moradores evangélicos.

O que ecoa mais forte?

A chegada do sino Vox Patris reacende a fé e pode fortalecer o turismo religioso. Mas também escancara o abismo entre o discurso oficial e a realidade vivida pelos trindadenses.

O que ecoa mais forte? O som de um sino vindo da Europa ou o silêncio do poder público diante das demandas do povo?

Enquanto a fé segue inabalável, os trindadenses continuam esperando — não por símbolos, mas por ações concretas. E, acima de tudo, por respeito à cidade onde vivem, trabalham e acreditam.

Nota da Redação – Goiás Verdade

A Prefeitura de Trindade, bem como todos os nomes citados nesta reportagem, têm espaço aberto para apresentar suas respostas e posicionamentos. O Goiás Verdade reforça seu compromisso com a imparcialidade, a apuração rigorosa e a pluralidade de vozes.

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